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Índio não quer só apito
Publicado no Jornal do Brasil
em 21 de abril de 2005
Publicado no Jornal de Brasília em 19
de abril de 2005
Sandra
Leis
Advogada
Dannemann, Siemsen, Bigler & Ipanema Moreira
Dannemann Siemsen Advogados
Recentes notícias confirmaram que nosso País é realmente
um país de contrastes. Enquanto uma página do jornal
anunciava o brutal assassinato de um ambientalista, que simplesmente
queria proteger os animais da Reserva do Tinguá, nos arredores
do Rio, contra a ação predadora de caçadores,
a página seguinte revelava que o Rio é o ponto turístico
preferido de alguns animais não tão urbanos, como jacarés,
pingüins, baleias e leões marinhos. Até uma capivara
já foi a vedete dos noticiários cariocas, quando teve
de abandonar sua morada na Zona Sul e se mudar, como qualquer outro
assalariado, para lugares não tão aprazíveis na
Baixada.
Para completar, fomos surpreendidos com mais uma notícia triste:
a morte dos indiozinhos no Mato Grosso do Sul.
Quando a expedição de Cabral aqui aportou, foi recepcionada
por milhares deles: fortes guerreiros, índias robustas, assustados
curumins. Até se poderia imaginar que muitos morreriam alguns
anos depois, vítimas de disputas de terras e doenças
transmitidas pelos brancos, mas nunca de fome ou desnutrição.
Até se poderia admitir morte semelhante entre índios
norte-americanos, vivendo em regiões inóspitas, castigadas
pela neve e o frio ou a seca dos desertos.
Nossos índios, porém, vivem em uma terra abençoada
pelos trópicos, onde a natureza também é cheia
de contrastes, mas generosa o bastante para alternar montanhas e planícies,
planaltos e pantanais, chuva e sol, rio e mar, como se quisesse dar
a todos uma chance. A chance de plantar e colher.
Como se pode conceber, então, que esses mesmos índios
que nos ensinaram seus pratos, suas curas, suas técnicas de
caça e pesca morram de desnutrição? Onde estará a
mandioca, o milho, o pintado e a traíra, o açaí e
o araçá? Onde estarão suas terras?
Nos foros internacionais se discute a proteção do conhecimento
tradicional, o conjunto de práticas, conhecimentos e ritos,
geralmente usando recursos naturais da biodiversidade, vinculados a
uma comunidade, que passam de geração a geração,
ou seja, o legado desse índios. Especialistas queimam suas pestanas
em Genebra para encontrar uma maneira de proteger esses valiosos conhecimentos
e convencer os titulares de patentes provenientes de recursos genéticos
e conhecimentos tradicionais a revelar a sua fonte e repartir os benefícios
decorrentes dessas patentes entre as comunidades detentoras de tais
conhecimentos e recursos.
Doutores realizam estudos sobre criações artísticas
indígenas, tentando defini-las e adequá-las à legislação
de propriedade industrial ou aos seus conceitos de direito autoral.
Estariam as "marcas indígenas" devidamente protegidas
pelas atuais legislações tal como estão as marcas
de indústria a comércio que comumente conhecemos? Multinacionais
investem milhões de dólares tentando descobrir o que
os índios já sabem há centenas de anos: as propriedades
curativas de plantas e raízes da floresta. E os índios
nunca gastaram um centavo com isto.
Enquanto a maioria dessas questões permanece
em aberto, temos, de fato, respostas para muitas delas. Temos a Constituição
Federal, que, em seu artigo 231, protege os costumes, credos, tradições
e direitos sobre as terras indígenas. Temos o Estatuto do Índio,
que, em seus artigos 2 e 47, procura resguardar esses mesmos costumes
e tradições, bem como a posse sobre as terras que habitam.
Foi criada até mesmo - e muita gente desconhece - uma
Comissão Indígena de Propriedade Intelectual, em maio
de 2002, composta por indígenas graduados em advocacia, educação
e antropologia, destinada a promover a discussão sobre temas
de propriedade intelectual e conhecimentos tradicionais entre as comunidades
indígenas no Brasil.
Legislação existe, ampla o suficiente para proteger
nossos índios. Debates e comissões não faltam.
Mas nada disso consegue evitar a morte lenta de nossas aldeias, que
nem a presença de figuras ilustres como Gisele Bündchen
e seu namorado DiCaprio consegue evitar.
Das mesmas plantas e raízes que são hoje alvo de calorosas
discussões deveriam advir não só o alimento, mas
também a cura para esses frágeis curumins, vítimas
da ação desordenada do homem sobre as florestas, do derrame
de poluentes nos rios, da catequização de um povo que
talvez devesse ter permanecido como nos tempos de Cabral. |
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