Alvaro
Loureiro Oliveira
Advogado
Dannemann, Siemsen, Bigler & Ipanema Moreira
Dannemann Siemsen Advogados
Considerado uma das maravilhas do mundo moderno, o monumento ao
Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, comemora 75 anos em 2006. Passados
tantos anos da inauguração da obra -e mais ainda da
sua concepção, dez anos antes- acende-se, hoje , uma
polêmica quanto à autoria da obra e, pior, quanto a um
suposto pagamento de royalties por sua reprodução.
Enquanto herdeiros do escultor Paul Landowski reclamam
seus direitos, os herdeiros do brasileiro Heitor da Silva Costa trazem
à luz importantes documentos, que mostram a verdade dos fatos
e encerram discussões autorais.
A obra teve seu embrião em 1921, quando o
Círculo Católico do Rio de Janeiro, com a proximidade
das comemorações do centenário da independência
do Brasil (em 1922), decidiu estudar a viabilidade da construção
de um monumento ao Cristo Redentor.
Diversos projetos foram, então, submetidos
a uma banca examinadora, tendo sido escolhido aquele apresentado pelo
engenheiro e arquiteto Heitor da Silva Costa. O projeto inicial contemplava
forma diferente, mas estudos posteriores de Silva Costa levaram-no
à versão mais simbólica do projeto, com a idéia
de se dar à figura de Cristo o aspecto da cruz, estendendo
os braços.
Baseando-se nos estudos e desenhos realizados, com
a importante colaboração do desenhista e pintor brasileiro
Carlos Oswald, Silva Costa preparou duas maquetes. Em seguida, partiu
para a Europa, onde contou com o auxílio de uma firma de engenharia
para os cálculos estruturais do monumento, e buscou a colaboração
de um estatuário, tudo visando a desenvolver de modo satisfatório
os planos exatos da construção de seu monumento.
Na França, conheceu e contratou Paul Landowski,
cujo trabalho admirava e entendia casar bem com a sua concepção
para o monumento. Contratado e devidamente pago por seu trabalho,
Landowski colaborou com Silva Costa na elaboração de
maquetes de 1 a 4 metros de altura, absolutamente necessárias
para a transposição ao monumento final, de 30 metros.
Coube, ainda, a Landowski o molde em gesso da escultura do rosto e
das mãos da imagem do Cristo.
Cabe aqui a pergunta: a quem, então, pertencem
os direitos autorais sobre o monumento arquitetônico ao Cristo
Redentor? Tendo a obra resultado da concepção, execução
e construção por um engenheiro-arquiteto, desenhos de
um pintor e maquetes de um estatuário, entende-se que os direitos
de autor pertencem, pois, aos três artistas.
Como, porém, os direitos patrimoniais sobre
a obra foram cedidos em caráter definitivo, no contrato de
empreitada, à encomendante, Sociedade Civil Commissão
do Monumento a Christo Redemptor, hoje incorporada pela Arquidiocese
do Rio de Janeiro, é a essa que compete a gestão desses
direitos e, conseqüentemente, a eventual cobrança de royalties
pela utilização ou reprodução do monumento.
Embora não se saiba, hoje, o paradeiro de
documento firmado entre Silva Costa e os demais, o contrato é
claro quando impõe a cessão desses direitos como condição
para a conclusão do projeto por Silva Costa. Como a obra foi
conduzida até o fim por esse, a conclusão é óbvia.
Essa conclusão é corroborada pelos escritos de Paul
Landowski que, formalmente, citam a cessão dos direitos patrimoniais
sobre sua participação na obra, a pedido de Silva Costa.
Assim, cabem aos herdeiros de Heitor da Silva Costa,
Carlos Oswald e Paul Landowski os direitos morais sobre a obra, devendo
eles zelar pela colaboração de seus ascendentes, exigir
a indicação dos respectivos nomes em todos os créditos
de autoria, bem como impedir quaisquer modificações
substanciais no monumento.
A hora para se resgatar a memória da construção
do monumento não poderia ser mais propícia; as comemorações
dos 75 anos da inauguração vêm bem a calhar para
que o nome destes autores seja gravado na memória nacional
e internacional. Afinal, o Monumento ao Cristo Redentor, obra de concepção,
execução e construção de Heitor da Silva
Costa, desenhos de Carlos Oswald e maquetes de Paul Landowski é
um marco histórico, símbolo da cidade do Rio de Janeiro,
e mesmo do Brasil, sendo a imagem que internacionalmente remete ao
País.